Está “fácil” morrer; mas a vida é nosso maior dom  

“Mais um turista cai no Monte Rinjani, onde brasileira [de 26 anos] morreu na Indonésia”; “Saiba quem é a mulher que morreu ao cair enquanto praticava rapel na Pedra do Elefante”; “O mundo do futebol e do esporte foi abalado pela notícia da morte prematura de Diogo Jota, aos 28 anos”; “Influenciador perde a vida após capotar BMW em grave acidente”; “Número de mortes chega a 78 no Texas; 10 meninas seguem desaparecidas – as buscas por desaparecidos após enchentes repentinas no Texas não param”. Estas são algumas das notícias com que me deparo no dia de hoje. Parece que a vida anda frágil, mais escorregadia do que nunca. Não obstante, muitas pessoas gostam de colocá-la em risco por vontade própria; outras, têm sido vítimas do “acaso” ou do destino. A impressão é de que “está fácil morrer”, em uma época em que a tecnologia e a informação tanto lutam para enganar a Morte.

Temos visto tantas vidas perdidas de maneiras inesperadas, até intrigantes ou bizarras. “A morte cai do azul.” É certo que a Morte chega para todos, mas às vezes ela tem pressa, ou é apressada, ou até “convidada” a estar presente. Situações de risco. Gente que morre fazendo selfie, são inúmeras as vítimas. Gente que morre em desafios ou punições de usuários cruéis e psicopáticos da Internet, crianças e adolescentes, casos de pedofilia e tortura mental e física como na rede social Discord. Gente que decide pôr um fim à sua própria vida — e quem sou eu para julgar a dor do outro, e condená-lo(a) ao inferno? Fato é que me dá a impressão de que está fácil morrer. Mais que isso: soa meio banal.

A vida não é, nem nunca poderá ser banal.

Por outro lado, Deus me livre julgar o que alguém faz com a sua vida — se quer arriscá-la em um vulcão remoto na Indonésia, se quer fazer rapel em um lugar perigoso, se quer correr na pista alcoolizado, se quer tirar selfies à beira de precipícios, se quer uma vida loca. Às vezes, é vítima inocente da fúria da natureza, como nas enchentes no Texas e no Rio Grande do Sul; ou da fúria do ente humano, como no genocídio de cristãos na Nigéria, na guerra de Irã e islâmicos radicais contra Israel e judeus, no conflito milenar e humano, demasiado humano, de uns contra os outros.

VIVER BUSCANDO AVENTURAS PERIGOSAS: A VIDA É PRECIOSA

Sempre houve mortes estranhas, bizarras e repentinas. De quem tentou atos memoráveis. Como dizia um professor meu de Física, que talvez hoje não esteja mais entre nós: “O cemitério está cheio de heróis”. Mas e por isso deixaremos de viver a vida que queremos ou que nos traz alegria, de enfrentar desafios? É claro que não. Mas o limite é tênue entre ousar, experimentar, viver um dia de cada vez, e se arriscar além da conta — alguém sabe o que é “além da conta”?

É perigoso viver buscando aventuras perigosas, esquecendo-se até de si mesmo, é não considerar que a vida é muito valorosa e não se deve pô-la a perder. A não ser que se queira, é claro. Livre-arbítrio.

Talvez você morra nos 30s, ou tenha perdido amados ainda bebês ou na infância ou adolescência — isso era muito mais comum antigamente, sem o desenvolvimento científico e social da humanidade. Ou talvez viva 98 anos, como a escritora Lygia Fagundes Telles. Talvez leve uma vida arriscada e permaneça até uma longa velhice. Talvez não tenha o costume de se aventurar, e de repente lhe tomem o dom da vida. Não se pode saber.

Mas, veja, como parece fácil morrer. Hoje estamos aqui, e amanhã? Morrer jovem é ainda mais triste — sim, pode ter vivido a mais plena das vidas, aos olhos de outros, mas foi apenas um piscar de olhos. Hoje estamos aqui, e isso é o que mais importa.

CONVIDAR A MORTE A CEIFAR A VIDA: SUICÍDIOS NÃO PARAM DE AUMENTAR

Sigmund Freud, o Pai da Psicanálise, dizia que o suicídio é uma “agressão voltada para si mesmo”. Para o célebre médico, tirar a própria vida é, essencialmente, uma forma de agressão que, em vez de ser dirigida a um objeto externo, rebela-se contra o próprio eu. Ele acreditava que a pulsão de morte (Thanatos), que naturalmente busca a dissolução e o retorno ao estado inorgânico, pode se manifestar internamente como uma força destrutiva.

Uma força destrutiva. A força da natureza — dos vulcões, das chuvas, dos oceanos, do calor e do frio extremos. A força do ódio humano — do ódio, das guerras, dos assassinatos. E a força contra si mesmo. O Brasil tem um dos maiores índices de suicídio no mundo — e, em quase todos os lugares do globo terrestre, o número de pessoas ou grupos de pessoas que tolhem sua existência carnal tem atingido picos alarmantes.

Só que nem sempre o suicídio é óbvio, até para si mesmo: a autodestruição pode ser lenta, sutil, passar despercebida.

Pesquisas apontam queda mundial de suicídios, mas, nas Américas e principalmente no Brasil, o número de pessoas que ceifam a própria vida vem se avultando. As maiores vítimas são adolescentes, jovens e grupos específicos, inclusive povos indígenas — abandonados ao tráfico de minérios endêmico e a doenças e subnutrição na Amazônia e no sequíssimo Cerrado, como as populações ribeirinhas. Até porque é uma maioria pobre, explorada por governos luxuosos e corruptos, e se sabe que a saúde mental está diretamente ligada a situação econômica e qualidade de vida.

Então, está ainda mais “fácil” morrer no Brasil: não apenas de suicídio, ou autodestruição (que dá no mesmo), mas de violência — somos um dos países mais violentos, e com maior índice de impunidade do mundo. E de doença e fome, em um Brasil sem qualidade na Saúde e no bem-estar social. Além disso, tem o ódio. Muito ódio, belicosidade e indignação no país que já foi do “falecido homem dócil”. Com razão: somos ridiculamente vituperados por um governo gigantesco, perdulário, autocrático e sempre envolvido em escândalos de corrupção. Mas, cuidado ao falar: contrariamente à Constituição Federal do Brasil, agora nossa opinião é institucionalmente censurada — o que é estranho a uma democracia, em que a voz soberana é do povo.

Em suma, estamos bipartidos politicamente, envolvidos em falácias, frustrações, caos econômico, social, moral, ambiental, democrático, nas relações exteriores, nas ideologias muitas vezes utópicas ou engessadas. Sentimos a esperança soprar fraca entre os dedos, em um lugar hostil que se tornou o Brasil. Não aceite a culpa política: é do governo atual que é muito bem remunerado para governar um país desgovernado. Quem manda deve assumir sua responsabilidade. Quem planta ventos, colhe tempestades. Diga-me com quem andas…

O Brasil está na UTI.

DIVAGAÇÕES SOBRE UMA GRANDE QUESTÃO FILOSÓFICA: A MORTE

Mas que complexo falar da Morte!

Ela sempre foi assunto. E falar sobre morrer, ou não viver enquanto respira, ou não valorizar a vida. Nessa vida é necessário ter coragem, como propalou um intrépido Guimarães Rosa; mas nessa vida é necessário também ter noção, alguma temperança, algum equilíbrio. Qual o ponto certo para cada um de nós? Descubramos. Viver sem tanto medo, não viver com ousadia demais. A não ser que você esteja disposto a “viver rápido e morrer de repente”.

Certo é que, dos dez aos 120 anos de idade, nossa passagem por aqui é breve. Tem de haver coisas maiores, as coisas que, por exemplo, o filósofo Santo Agostinho — não como religioso, meramente, mas como ser humano — vislumbrava. Coisas além-vida. Para muitos não há. Esses é que tem de mais perpetuar e valorar o tempo antes do último suspiro: e suspirar, porque nada há depois.

Nós outros, que acreditamos — não puerilmente, mas na infinidade de possibilidades que o Universo e o mundo sobrenatural nos oferecem — no espírito eterno e que não morre, nós vivemos enquanto nos preparamos para o outro plano. A dimensão mais importante, eterna — embora não compreendemos com exatidão o que é a eternidade, o não-tempo. E vislumbrar o além-vida não significa desprezar nossa estada aqui. Até porque dela dependerá nosso destino, segundo nossas crenças, nós que as temos em um mundo complexíssimo e repleto de fenômenos sobrenaturais, muitas vezes puerilmente resumidos a problemas psiquiátricos ou particularidades sensoriais. Haja fé.

FÁCIL MORRER, FÁCIL VIVER

Está “fácil” morrer, mas também está mais fácil do que nunca viver e não apenas respirar: nunca houve tanta liberdade e meios para ser quem se é, fazer o que se quer, viajar aonde sonhar, se divertir, conhecer, pensar. Nunca o livre-arbítrio esteve tão robusto, e nossa responsabilidade como indivíduos assim aumenta. A vida nos pede coragem e precaução, e que equilíbrio sutil!

A escolha certa ou fatal ninguém pode saber com certeza qual — todavia, sempre há e haverá uma escolha a ser feita. Erros se tornam acertos, o que pareciam acertos se revelam equívocos. Como é este entrelaçamento incognoscível de pequenas e grandes escolhas — e não escolher já é uma escolha — na vida!

Destarte, enquanto não morremos, vivamos. E você? Está vivendo, ou apenas existindo? Está vivendo perigosamente, ou aproveitando a vida? Você está sendo você, um ser único com seus desejos e suas dores, ou alguém que o mundo quer que você seja?

A vida é o dom maior. Como é frágil e como é forte, essa esfinge que nos desafia a viver.