Em entrevista à Rádio Progresso de Ijuí (RS) nesta terça-feira (29), o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice-presidente da República, fez duras críticas à condução da política externa brasileira e avaliou que a atual tensão entre Estados Unidos, China e outras potências mundiais configura uma “guerra geopolítica silenciosa”, na qual o Brasil estaria sendo disputado como área de influência.

Para Mourão, a China exerce hoje um papel central no cenário global e a aproximação do Brasil com Pequim — reforçada durante o governo Lula — pode despertar reações estratégicas por parte de Washington. O senador mencionou que o ex-presidente Donald Trump estaria explorando o caso judicial envolvendo Jair Bolsonaro para manter o Brasil distante da influência chinesa.

“O Brasil deve manter relações comerciais com todos os grandes players globais, mas sem se alinhar automaticamente com regimes autoritários ou adversários dos Estados Unidos. Precisamos de uma política externa pragmática, não ideológica”, afirmou Mourão.

Críticas ao governo Lula e alinhamento internacional

Mourão classificou a atual política externa como “suicida” e alertou para o que considera um alinhamento excessivo com países como China, Rússia e Irã, na contramão dos valores ocidentais democráticos. Segundo o senador, o Brasil corre o risco de perder credibilidade junto a seus parceiros históricos, como os EUA e a União Europeia, ao adotar uma postura que ele considera “ambígua” diante de conflitos globais como a guerra da Ucrânia.

Apesar disso, o parlamentar reconheceu a importância da China como principal parceiro comercial do Brasil, responsável por mais de 30% das exportações brasileiras, sobretudo de commodities como soja, minério de ferro e carne bovina. Para ele, a relação deve ser mantida com equilíbrio e sem concessões ideológicas.

8 de janeiro, STF e Bolsonaro

Questionado sobre os desdobramentos dos atos de 8 de janeiro de 2023, Mourão reafirmou sua posição de que não houve tentativa real de golpe de Estado, mas sim o que chamou de uma “baderna desorganizada”. Ele voltou a criticar o ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos no Supremo Tribunal Federal (STF), dizendo que o magistrado atua de forma “incompatível com o devido processo legal”, acumulando funções de investigador, acusador e julgador.

Sobre o processo que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, Mourão sugeriu que ele poderá ser anulado futuramente, com base em vícios processuais e alegada “motivação política”.


Contexto internacional: Brasil entre EUA e China

A fala de Mourão ocorre em meio a um cenário de crescente disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, marcado por sanções, tensões comerciais e tecnológicas, além de influências estratégicas na América Latina e na África.

Recentemente, a montadora chinesa BYD adquiriu direitos de exploração de lítio em Minas Gerais, reforçando a presença econômica do país asiático no setor de energia e mobilidade brasileira — algo que tem provocado reações políticas no campo conservador, que vê na presença da China uma ameaça à soberania nacional.