Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade do Pampa (Unipampa) identificaram, em Caçapava do Sul, na Região Central do Rio Grande do Sul, rochas com concentração excepcional de elementos de terras raras — minerais essenciais para tecnologias de ponta, como turbinas eólicas, baterias de carros elétricos, satélites e equipamentos médicos.

O levantamento revelou que os solos da região apresentam índices até nove vezes superiores aos encontrados em outras áreas do Brasil, 12 vezes maiores que os de Cuba e seis vezes acima dos da China, líder mundial no setor.


O que são terras raras e por que importam

As chamadas “terras raras” formam um grupo de 17 elementos químicos encontrados na natureza, geralmente misturados a outros minerais, o que dificulta sua extração. Apesar do nome, não são exatamente escassos, mas as concentrações economicamente viáveis são incomuns.

A importância estratégica desses minerais é enorme: estão presentes em sistemas de defesa, energia renovável, eletrônicos de última geração, veículos elétricos e até em foguetes.

Atualmente, o Brasil detém cerca de 23% das reservas mundiais (aproximadamente 21 milhões de toneladas), mas ainda não domina o processo de refino industrial — etapa controlada majoritariamente pela China, que concentra 49% das reservas globais e quase todo o know-how de purificação e produção de ímãs.


O potencial econômico de Caçapava do Sul

A pesquisa, coordenada pelo professor Marcelo Barcellos da Rosa, do Departamento de Química da UFSM, destaca a presença de carbonatitos — rochas ígneas raras — nos corpos de Passo Feio e Picadas dos Tocos. Elas contêm minerais de alto valor como apatita, pirocloro, monazita-(Ce) e aeschynita-(Ce), além de nióbio e tântalo.

Esses materiais são fundamentais para motores elétricos, turbinas eólicas, satélites e outros equipamentos estratégicos. Segundo os pesquisadores, as concentrações identificadas colocam a região entre as mais promissoras do mundo para exploração de terras raras.


Interesse internacional e desafios brasileiros

O estudo surge em meio a uma disputa geopolítica crescente pelo controle desses minerais. Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Raul Jungmann, os Estados Unidos já manifestaram interesse em firmar acordos para adquirir terras raras brasileiras. Em reunião recente, representantes da embaixada norte-americana teriam reforçado a importância de acesso a esses recursos estratégicos.

No entanto, especialistas alertam que o Brasil precisa investir em uma cadeia completa de produção — da mineração ao refino — para capturar o valor agregado, evitando a simples exportação de matéria-prima bruta. “Falta integração entre extração, tecnologia de purificação e políticas industriais de longo prazo”, afirma o doutor em Ciências Lucas Mironuk Frescura, da UFSM.


Próximos passos

O projeto, financiado pelo CNPq e previsto para seguir até dezembro de 2026, reúne geólogos, químicos e biólogos para mapear a ocorrência, analisar a viabilidade econômica e avaliar os impactos ambientais da exploração.

A UFSM coordena as coletas de solo, vegetação e água; a UFRGS analisa a composição mineralógica e geológica; e a Unipampa avalia as condições ambientais e a fauna da região.

Se confirmada a viabilidade comercial, Caçapava do Sul poderá se tornar um dos polos mais estratégicos do planeta para a produção de terras raras — e o Brasil terá em mãos uma oportunidade única para redefinir sua posição no mercado global de tecnologia.