Wagner Moura tem sido um dos grandes expoentes do cinema nacional nos últimos anos, e ninguém duvida do inesgotável “capitão Nascimento”. O recente longa que protagonizou, “O agente secreto”, foi aplaudido em Cannes — mais uma história sobre a “eterna” ditadura dos anos 1970 no Brasil, como em “Eu ainda estou aqui”. Mas a série “Ladrões de drogas” ficou de fora do Emmy 2025, para decepção de vários brasileiros nas redes sociais, que evidenciaram o protesto contra os “estadunidenses” — direto de seus iPhones e redes sociais estadunidenses.
Enquanto isso, nosso país verde e amarelo se convulsiona em críticas internas e globais em relação a atos antidemocráticos: alianças com ditaduras, apoio a grupos terroristas, inclusive antissemitas como do Irã, e a censura no modelo do “admirado sistema chinês”, como declarou o ministro Gilmar Mendes.
O repúdio nas redes à não-indicação da série denota a militância que ela carrega, como no caso “Eu ainda estou aqui” — e até por parte dos próprios atores, Fernanda Torres e Selton Mello, por exemplo, em entrevistas nos Estados Unidos denunciando um golpe suposto dos “bolsonaristas” que até hoje carece de provas cabais na visão de muitos. Fernanda acabou levando o Globo de Ouro de melhor atriz e foi indicada ao Oscar, que não venceu.
Acredito que de sua mãe, a incomparável e sublime Fernanda Montenegro, tenham solapado a estatueta mais cobiçada do Cinema, injustamente, pela obra-prima “Central do Brasil”, lá em 1998. O filme, por si só ainda não embebido ou envolvido notavelmente com militância política, merecia até mesmo o prêmio de melhor filme estrangeiro. É de uma simplicidade crua e ao mesmo tempo deleitante, difícil de se ver hoje.
Sobre “Eu ainda estou aqui”: ainda ergueu o Oscar de melhor filme estrangeiro para o Brasil. País, mais uma vez, envolto em crises de democracia e entre os três poderes, e em acusações de perseguição política e à liberdade de expressão.
A Constituição Federal do Brasil respira por aparelhos, à espera de soluções menos politizadas, menos corruptas e mais fidedignas à própria Lei Seca que tem sido tão “umedecida” conforme juízes e réus.
LADRÕES DE DROGAS DENUNCIA O NARCOTRÁFICO NOS ESTADOS UNIDOS
A série “Ladrões de drogas” acaba por ressaltar o narcotráfico nos Estados Unidos, talvez banalizando narcotraficantes através da amizade. Dois amigos envolvidos com o narcotráfico nos EUA se veem em uma intrincada trama golpista.
“Golpe” é assunto em voga no Brasil, mesmo em meio a contradições, e mesmo com o apoio de Lula ao assumidamente golpista Maduro e o respectivo perdão lulista de R$ 10 bilhões de dívida dessa ditadura socialista.
MILITÂNCIA EM XEQUE? ESTADOS UNIDOS VS. BRASIL?
A militância, ou suposta militância no Cinema, não apenas no Brasil, estará em xeque? Há de fato algum relato implícito dos Estados Unidos contra um filme que trata de crimes em suas terras? Em retaliação ao desprezo e até ódio de muitos militantes de esquerda aos “EE.UU”, como dizem os argentinos de Milei?
Encontramo-nos, como nação, em meio a um imbróglio diante das as tarifas dos Estados Unidos e o enfrentamento de nossos governantes ao governo Trump. Donald Teump, a quem ministros, Lula, Janja e o Itamaraty têm dirigido ofensas diretas, embora pareçam querer deixar claro que são independentes dos gringos. Até um boicote aos produtos americanos tem sido reivindicado nas redes pela militância — quer dizer, a grande maioria de tudo o que utilizamos, direta ou indiretamente, no Brasil.
Fala-se em soberania nacional, mas aí excluem-se a “importação” do modelo de censura da ditadura da China, fundada por Mao em 1921, ao qual são atribuídos cerca de 70 milhões de mortos. E não se contabilizam os “resgates” das condenadas por corrupção socialistas da Argentina e do Peru pelo governo brasileiro. Dois pesos, duas medidas.
UMA AMIZADE “INOCENTE” ENTRE NARCOTRAFICANTES?
A arte imita a vida. “Ladrões de drogas” parece banalizar o narcotráfico em favor de uma bela — e conturbada — amizade, ao mesmo tempo em que confronta o telespectador com o narcotráfico norte-americano na costa leste estadunidense.
Isso tudo em uma situação caótica de domínio do narcotráfico na América Latina e no Brasil, inclusive com acusações de o atual governo tupiniquim estar atrelado a facções criminosas. Há indícios, e têm havido questionamentos.
É verdade que o cinema brasileiro avultou-se no panorama mundial com “Eu ainda estou aqui”, inspirado no livro de Marcelo Rubens Paiva — cujo pai, embora apontado por muitos como ligado a grupos narcotraficantes e de guerrilha, foi torturado e silenciado pelos donos do poder. A exemplo de Brazão na obscura Papuda, que também deixou família e revolta. O filme do premiado diretor Walter Salles colou. Não foi o caso de “Ladrões de drogas”.
Acredito, em uma opinião muito pessoal, que é hora de sairmos do passado e retratarmos, e com a menor politização possível, a bomba que é o Brasil hoje, em diferentes dimensões.
O buraco econômico inédito desde a redemocratização, a crise democrática, moral, ambiental, as mazelas sociais que há vinte anos nos assolam com a anuência ou incompetência de políticos jurássicos e promessas antigas, apesar de suas pias palavras populistas.
E para que falar do narcotráfico nos Estados Unidos, onde esse crime tem sido duramente combatido por Trump, e não apenas em seu país — a maior Economia do mundo — mas na América Latina e em outros lugares? Se aqui mesmo na América do Sul e no próprio Brasil temos muito o que resolver sobre narcotráfico, violência, liberdade de escolhas.
À parte disso, o fio condutor de “Ladrões de drogas” é a amizade, aparentemente. Relações humanas. No fim, são sempre elas os magnânimos temas da arte — e da vida. O Brasil precisa olhar mais para o Brasil de hoje, e por ângulos diversos, dada a nossa multiculturalidade e a multiplicidade de ideologias, necessidades e esperanças.
Esperança: eis algo que nos falta hoje no recanto paradisíaco onde já cantou o sabiá, e agora grita de terror. Por que não falarmos de esperança mais que de militância, ao menos na arte? De futuro, mais que de passado? E se os tempos oficialmente ditatoriais estiverem se repetindo, ou em vias de fazê-lo? Somos censurados pelo Estado. Isso ocorre de praxe em países ditatoriais.
Eis que o Cinema deve ser de todos e para todos. Essa é a liberdade maior da arte, e que lhe é ou deve ser intrínseca, fulcral, para que seja verdadeira e atemporal: pluralidade de visão de mundo e pluralidade de público — claro, sempre dotados do poder de crítica — e não instrumento estatal ou de grupos alimentadas de extremismos políticos. Veja a revolta que “Eu ainda estou aqui”, e também a comoção, gerou no povo brasileiro; veja o ódio destilado nas redes porque um filme que abarca o crime nos EUA não foi escolhido, e assim não Wagner Moura, conhecido militante de Esquerda.
Convenhamos, o Cinema e a arte brasileiros já foram mais que politicagem.







