A palavra “narcisismo” é frequentemente usada no dia a dia para se referir a alguém muito vaidoso ou muito egocêntrico. Muito, porque nós todos somos vaidosos e egocêntricos — é da natureza humana. No entanto, excesso de vaidade e egocentrismo, dentre outras características nefastas ao convívio, podem formar o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN). Precisamos nos proteger e, na medida do possível, nos afastar desses “Maquiavéis”, para quem sempre os fins justificam os meios e os outros não passam de ferramentas úteis para a elevação delirante do ego.
Mas o que é, cientificamente, o Transtorno de Personalidade Narcisista? Em suma, consiste em um padrão persistente de grandiosidade, uma necessidade intensa de admiração e notável falta de empatia. Um combo desastroso para a saúde mental dos que se relacionam com os portadores de TPN. Além disso, o próprio narcisista acaba passando por dificuldades em várias áreas da vida.
Então, quero trazer a você alguns sinais de portadores de TPN — às vezes são sutis, ainda mais para os apaixonados ou intimamente ligados a essas pessoas, que podem ficar “cegos” e não perceber os riscos a que estão expostos.
1 Grandiosidade e senso de superioridade
A grandiosidade é central no TPN. Pode ser traduzida como um senso inflado da própria importância e uma superestimação das habilidades e realizações. É isso mesmo: indivíduos com TPN, de qualquer gênero, acreditam ser superiores, únicos ou especiais. Nutrem fantasias de sucesso ilimitado, poder, inteligência ou beleza avassaladora. Mas…
Tal percepção, distorcida, os leva a subestimar o valor e as conquistas alheias, desprezando aqueles que consideram menos importantes. Trata-se de profunda insegurança e autoestima frágil, disfarçadas de autoconfiança e soberba. A menor crítica pode desestabilizá-los, provocando raiva ou desdém. Esse senso de superioridade também retroalimenta uma expectativa irreal de que devem receber tratamento especial e privilégios, uma vez que acreditam que suas qualidades únicas os tornam merecedores de regalias que outros não podem ou devem ter.
2 Necessidade insaciável de admiração
Narcisistas patológicos ou TPNs demonstram uma necessidade excessiva e constante de atenção e adulação. Essa busca incessante por validação é uma característica distintiva, levando-os a criar ou buscar situações em que possam ser o centro. Nesse bojo, temos uma compulsão por elogios — o reconhecimento atua como uma tentativa de compensar a autoestima deficiente e a percepção de falta de aceitação. Importante dizer que, muitas vezes, essas pulsões estão enraizadas em experiências da infância.
Seja como for, a validação nunca é suficiente para o narcisista, visto que essa necessidade, neles, é um poço sem fundo. A dependência de “suprimento narcisista” pode levar à manipulação de outras pessoas, qualquer pessoa, consideradas, conscientemente ou não, meros objetos para obter o que falta internamente ao ente narcisista.
3 Ausência ou diminuição da empatia
A falta de empatia é um dos critérios diagnósticos mais críticos para o TPN. É determinante também em casos de psicopatia, por exemplo.
A ausência (em casos extremos) ou redução de empatia nos narcisistas se manifesta como incapacidade ou falta de vontade de reconhecer e de se identificar com os sentimentos e necessidades dos outros. Eles só veem a si mesmos, e é tudo o que veem.
Assim, ignoram ou minimizam o sofrimento alheio, explorando outras pessoas para atingir seus próprios objetivos.
Mas atenção: não é uma incapacidade total de compreender as emoções alheias, senão uma relutância em fazê-lo, muitas vezes como um mecanismo de autoproteção para evitar vulnerabilidade ou vergonha. Destarte, a ausência de consideração pelos sentimentos alheios é um fator que diretamente estimula comportamentos manipuladores e abusivos nos relacionamentos.
4 Senso de direito e privilégio
Todos nós queremos nossos direitos e queremos ser aceitos e até admirados. Mas os narcisistas transpassam os limites da normalidade.
O senso de direito que lhes domina é a crença de que merecem tratamento especial e privilégios, muitas vezes independentemente de suas ações ou méritos. Esperam que suas vontades sejam atendidas sem questionamentos, e podem se sentir ofendidos se alguém receber a atenção que deveria ser sua. Tal expectativa irreal não nasce de um senso genuíno de valor próprio, mas antes de um vazio interno e da sensação de “não ser bom o suficiente”, levando a uma propulsão premente e perigosa a controlar pessoas e situações.
Dessa maneira, quando as expectativas do Narciso inescrupuloso e vingativo não são satisfeitas, ele pode reagir com impaciência, raiva ou desprezo, e até mesmo arquitetar vingança por supostas desfeitas. Enfim, é um ciclo de expectativas não-atendidas e de reações negativas que deteriora, brusca ou lentamente, os relacionamentos.
Quebrando o “espelho, espelho meu”
Os narcisistas não param de se olhar no espelho e buscar em si a perfeição — ainda que à custa dos outros ou de infringir normas. Ninguém pode superá-los: “Quem é mais que eu?”. Aqui, é importante sublinhar que de fato temos vivido, genericamente, em uma sociedade narcisista e cada vez menos empática. Ao contrário do que se esperava após a comoção da pandemia de COVID-19.
Mas, voltando-nos ao âmbito pessoal de cada um de nós, precisamos nos precaver e estar atentos a sinais como os citados – grandiosidade, necessidade insaciável de admiração, ausência ou diminuição de empatia e senso de direito. Eles podem indicar a presença do Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), uma condição psiquiátrica desequilibrante e ameaçadora.
E, se você já enfrentou narcisistas como eu, deve saber que, à primeira vista, com frequência parecem “uns amores de pessoas” — é que precisam conquistar sua confiança e sua dependência deles. Sua utilidade para eles. De forma sub-reptícia causam, nos que com eles se relacionam, problemas duradouros e difíceis de lidar, como ansiedade e depressão.
Um adendo: se você acha que pode ser uma pessoa narcisista, já adianto que evite o autodiagnóstico. A avaliação e o acompanhamento pertinentes devem ser realizados por um ou mais profissionais de saúde mental. A notícia ruim é que indivíduos TPN raramente procuram tratamento para o transtorno em si: pedem ajuda apenas para condições associadas, como depressão ou ansiedade. Porque tanto quem tem TPN quanto quem convive com eles, sai prejudicado. É deterioração da saúde mental e até física.
Estejamos, mais uma vez, em alerta. Nossa autoestima e nosso amor-próprio vêm sim em primeiro lugar, mas não ao preço de contínuos danos alheios, sem a mínima empatia e sem bom senso.
Embora seja até comum, ainda mais em nossa sociedade tão doente, o narcisismo patológico jamais poderá vestir a carapuça da normalidade. Estamos falando de um grave transtorno psiquiátrico que carrega e distribui hostilidade, desequilíbrio e até maldade pura e simples. Por isso, não espere remorso, não acredite em desculpas e, talvez, nem mesmo em lágrimas de crocodilo. Valorize-se, ame-se, cuide-se e proteja-se de quem lhe faz mal — isso não é narcisismo, mas saúde para a alma e para os ossos.












