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sexta-feira, julho 17, 2026
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A cultura do “seja você mesmo” está criando gente insuportável (até para si mesma)

Hoje é muito comum os indivíduos ou grupos sociais reivindicarem seus direitos de voz, de vez, de ser. O que em si é necessário ao equilíbrio político, econômico e social das nações. Mas parece haver um exagero nisso de “eu sou assim mesmo, dane-se quem não concorda”.

O pior, muito desprezo e ódio têm sido arremessados como flechas em direção a quem tem opinião própria ou vai contra a opinião da maioria, ou de uma parcela significativa de pessoas. Quem não é politicamente correto. O ponto é: estamos nos tornando seres com pouca empatia, sem filtro e sem noção. Não foi sempre assim, especialmente no Brasil.

As gerações mais novas, por exemplo da Z em diante, já crescidas nas telas do Wi-Fi dos smartphones, foram meio que doutrinadas a não se dobrarem para nada, ou serem inflexíveis. Ao mesmo tempo, pregam insistentemente acolhimento a minorias e liberdade. Esqueceram-se de ser educados, gentis e até suportáveis. Professores do Ensino Básico ou Ensino Superior que o digam. Como tem sido difícil para nós falar sobre hierarquia, autoridade, respeito, consciência, e sem a interferência de pais muitas vezes superprotetores.

Quer dizer, gente mimada. Não estou me incluindo totalmente fora disso, somos parte de todo esse movimento social inédito, o de ser livre e ao mesmo tempo andar “escoltado”.

Hoje, limites são vistos com frequência como mera “opressão”. Empregadores não querem contratar a geração Z em diante, e eles não querem trabalhar com disciplina, cobranças e regras. Isso é factual, há pesquisas e abordagens abundantes desse fenômeno. É apenas um exemplo. Nesse bojo, qualquer correção vira ataque, qualquer “não” pode ser um trauma.

Tenho certeza de que as redes sociais têm enorme impacto nisso tudo: até porque andamos “algemados” a nossos smartphones e nos “alimentamos” deles em excesso, notadamente no Brasil, cujo Tempo de Tela (TDT) diário é muito alto. Mas não é só online, e levamos para “fora” o que vemos, sentimos e fazemos nas redes. Somos adestrados nas redes sociais. O adestramento é em direção à intolerância, desconhecimento, ignorância, arrogância e até crueldade ou criminalidade, como pedofilia e mutilações de crianças e adolescentes no Discord.

Achávamos que sairíamos melhores da pandemia e acredito que aconteceu o contrário.

Apesar de falarmos tanto em crescimento pessoal, em autoestima, amor-próprio, muitos coaches do tudo por aí, e de qualquer coisa, não é nossa realidade o fato de que estejamos mais propensos à aceitação e até mesmo à autoaceitação – ainda que gritemos que somos livres e podemos ser quem quisermos. Querendo ou não, o ambiente nos atinge.

Veja o zeloso e paciencioso padre Fábio de Melo “a um passo de desistir”, como disse, por causa de um mal-entendido em uma cafeteria devido ao preço de um pote de doce-de-leite. Estamos mimizentos.

Estamos mais acusatórios, inquisitivos, intolerantes – até na alimentação. Tudo é motivo de conflito. E meu Deus se nos acusarem de algo ou questionarem nossa opinião! Apesar de que muitos fazem isso em forma de agressão.

Em tempo: é bom ter princípios e raízes. Mas é importante saber quando e por que mudá-los, se necessário. E o mais importante de tudo, a velha lei de Darwin, vence quem melhor se adapta. Estamos ficando pouco acostumados a nos adaptar aos outros, ao que não queremos, ao desconforto, a dificuldades, aos “nãos”. Grosseiros, mimados e mal-resolvidos, mesmo com terapia tão difundida, assim como informações sobre saúde mental.

CONTRA-EVOLUÇÃO E A LEI DA ENTROPIA SOCIAL

A verdade é que isso parece uma contra-evolução. Até porque combina com a principal lei do Universo (do nosso, a Ciência sabe que há inúmeros): a Lei da Entropia: todo sistema se desorganiza proporcionalmente o tempo, tornando-se mais caótico até sua destruição ou morte (transformação derradeira e inutilização).

Isso contraria, a meu ver, frontalmente a superestimada lei do evolucionismo, em que os sistemas vão se organizando e melhorando com o tempo – mas não invalida adaptações necessárias à sobrevivência, por isso temos raças diferentes, por exemplo. Voltando a essa Lei da Entropia: parece que estamos nos tornando mais desorganizados e caóticos com o passar do tempo.

Ego disfarçado de “autenticidade” ou “liberdade”. Ego que não aceita mudar, ou o faz dificilmente. Que não ouve, só grita. Só ofende. Pouco pesquisa, pondera, tenta se colocar no lugar do outro. “Hipócrita!”, você dirá. Estou me referindo à imensa maioria de nós, que estamos inseridos nas volúveis e inconstantes Era da Inteligência Artificial e Era Digital. Tudo é líquido e mutante, como sublinhou Zygmunt Bauman (in memoriam).

Para terminar: sim, ser quem somos é maravilhoso e libertador! Mas precisamos carregar o peso disso. Estamos preparados? Tantos enfrentamentos podem ser evitados. Não por covardia. Falta paz entre os países e entre as pessoas. Dentro de nós mesmos. Chega de frases-feitas, estupidez, prepotência, chega de ser mais um problema para o mundo que não aponta soluções.

Se eu tenho uma solução para tudo isso? Para mim e para nós? Ao menos estou tentando detectar os erros, que é o primeiro passo. Assumir. Depois, precisamos de ações efetivas, mesmo que machuquem a muitos mimizentos e a outros sinceramente bem-intencionados e feridos. Precisamos falar mais sobre isso. Argumentar não está na moda no Brasil.

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