Uma nova função, ou talvez um jeito de ser ultra moderno, está em voga: a figura do influencer. Ela está por toda parte nas redes, são gente de todos os tipos mostrando todo tipo de coisa — muitas vezes nada relevante e muito menos condizente com suas vidas offline. Mas não importa muito, se houver engajamento, audiência, plateia, e para muitos, sempre há.
O influencer digital pode ser um profissional de qualquer área, ou mesmo um alguém sem diploma ou posicionamento profissional definido. Pode aparecer como uma celebridade consolidada há tempos no show business, ou forjada no mundo digital, e Felipe Neto é um exemplo lá dos primórdios disso. Ademais, inúmeros influenciadores são políticos, mentores, gurus — assim se apresentam, e quem discordará?
Fato é que influencers de todas as idades, posições e condições sociais, se superexpõem nas redes e “abrem” suas vidas, editadas de maneira que pareçam interessantes ou “consumíveis”, sob o apelo à tradicional curiosidade humana em relação à vida dos outros — nada de novo. Alguns prometem mundos e fundos com cursos, masterclass da sua vida, aplicativos, prosperidade rápida, dicas de beleza, saúde, “segredos” e, é claro, “últimas vagas em promoção”, ou no mínimo “inscreva-se hoje mesmo”.
Porém existem influencers a quem lhes é suficiente o “barulho” da plateia. A saber, engajamento, status digital e social, ganhar dinheiro. É direito deles, meu, seu, de todos nós. Muitos dos novos humoristas das redes, por exemplo, têm alcançado sucesso satirizando a vida em imagens de memes e vídeos divertidos. Alguns deles, é verdade, são bastante sardônicos e até nos deixam perplexos.
Mas, então, o que pretendo ao tratar de influencers? Eu mesma, talvez, possa ser vista por alguns como uma. Jornalista. Escritora. Especialista em Psicologia Positiva — apesar de que tenho andado distante das redes, que aqui no casulo pessoal as coisas têm de ser silenciosas enquanto ardem, esticam e puxam.
O que ganhamos e o que perdemos?
Pessoas superexpostas, muita das vezes, se tornam até referenciais: os chamados influenciadores de opinião pública e comportamento. Você também pode, porque todo mundo pode. Monetizar e se destacar no mercado, na sociedade, no mundo digital ou apenas buscar um sentido de vida. E tudo bem.
Meu alerta é sobre a necessidade de filtrarmos cada vez mais o que estamos expondo e consumindo. Felca falou sobre a superexposição de crianças adultizadas, sensualizadas e até exploradas pelos próprios pais, por meio de púrias como Hytalo e seu marido. É que pedofilia e incitação a pedofilia são crimes graves. Mas essa é apenas uma amostra do quanto a liberdade digital de ser (ou parecer), falar ou mostrar é uma faca de dois gumes, a qual deve ser utilizada com cuidado, ética e responsabilidade.
Incluo aqui o emprego ético e responsável da Inteligência Artificial (AI), hoje imiscuída, direta ou indiretamente, na vida digital e na vida “real” da maioria das pessoas no mundo.
E me arrisco a ir além: a superexposição na Internet, nas redes sociais, pode estar nos fazendo mal? Tanto a quem se expõe de forma obstinada quanto a quem consome de forma constante? Por isso, ou por isso também o disparo de casos de depressão, ansiedade, TDAH? Estaremos planando sobre um território obscuro e imprevisível, que pode se tornar ou já tem se revelado uma ameaça à saúde mental e física das pessoas?
Apareça demais ou desapareça. Quem não é filmado ou fotografado, não é notado. E não ser percebido, na Sociedade do Espetáculo que Guy Debord anteviu lá nos anos 1990, pode ser fatal para a autoestima e o sucesso profissional. Mais uma vez, para a saúde mental interligada à saúde física. Senso de pertencimento. Autoestima. Necessidade de uma vida pessoal realmente pessoal.
Eu sei, é difícil falar em equilíbrio. E é ousado e até hostil pretender julgar o que alguém fala, faz ou mostra nas redes sociais — dentro da Lei, é claro. Apenas tento avaliar nossa época, buscando entendê-la, me proteger dos maiores ardis. Vicejar um futuro melhor para todos nós, não deixar escapar a humanidade e as recônditas verdades. Talvez uma utopia, em uma realidade que gira tão rápido, e parar pode significar ficar para trás hoje, amanhã ou para sempre.
Haters, discursos de ódio, notícias falsas. regulamentar, então?
Redes sociais têm, mais do que nunca, seus perigos: a superexposição, os haters, os discursos de ódio, informações comprovadamente falsas. Regulamentar, então?
Não, pois a democracia demanda, sobremaneira, a liberdade individual — mais uma vez, dentro dos limites legais de cada território. Para infrações, há calúnia, difamação e injúria. Há processos por bullying e preconceitos. Não, regulamentar tudo é cercar tudo e “prender” todo mundo, como fizeram no dia 8 no Alvorada, sem advogados, sem acesso aos autos, sem a devida possibilidade de defesa.
Certo é que o mundo, meus amigos, está mudando mais do que jamais mudou antes. A velocidade é absurda — segure-se! E a superexposição pede cada vez mais, cava cada vez mais fundo, exige cada vez mais conteúdo, e melhor editado, mais direto e assertivo, e invade cada vez mais a cada um de nós.
Estamos mesmo felizes? E a inveja, e a frustração, e a impotência diante do outro? E o vício nas telas, em vez de viver de verdade? E o vício em ter aparências e isso bastar, mais do que jamais bastou?
Trago apenas reflexões, percorro meu Labirinto do Fauno.
Contudo, já sei que aquilo que é vital, no mundo digital e no mundo real — agora entrelaçados inalienavelmente. O essencial é encontrar cada um de nós o seu lugar no mundo, descobrir suas raízes inegociáveis e as que precisam, rotas, ser cortadas. Encontrar seu propósito de vida, mudá-lo se necessário, definir seus objetivos, tocar e preservar a sua, enfim, essência. Digo isso tudo para todos nós.
“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”, bem viu o laureado escritor Saramago. Essa coisa é o que não podemos perder, entre tantas imagens, devaneios e ilusões da Era do Espetáculo, da era do apareça demais ou desapareça. Mas Clarice Lispector disse que “perder-se também é caminho”. Então, caso a tenhamos perdido, essa coisa que é o que somos ou ainda nos tornaremos ou até estávamos nos tornando, refaçamo-nos. Ainda há tempo, hoje, agora, por nós mesmos e ainda pelas pessoas e coisas que amamos. Uma vez sabendo quem somos e o que queremos, selecionamos o que expomos e não expomos, e o que devemos mostrar. O mundo digital precisa de mais paz.












