No Brasil, o setor logístico — que responde por aproximadamente 12% do PIB e emprega milhões de pessoas, conforme dados da Associação Brasileira de Logística — enfrenta um desafio crescente: a escassez de profissionais qualificados, especialmente motoristas de caminhão.

Esse problema se agrava por um perfil cada vez mais envelhecido entre os condutores da profissão. Segundo o Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC), mesmo diante da alta demanda, as admissões de motoristas de caminhão recuaram 0,4% no primeiro trimestre de 2025, em comparação ao mesmo período do ano anterior.   Somado a isso, motoristas com mais de 71 anos ainda estão em atividade, enquanto o perfil médio de idade entre os autônomos gira em torno dos 46 anos.

Na cidade de Guarulhos (SP), um dos principais polos logísticos do país, a disputa por motoristas é particularmente acirrada. “Há pessoas que já não querem seguir carreiras tradicionais, como a de caminhoneiro, e isso agrava a escassez. Para enfrentar o problema, criamos iniciativas como o programa 50+, voltado à qualificação de motoristas”, destaca Regilane Assunção, gerente de RH do Grupo IBL. O grupo está disponível para entrevistas sobre os impactos desse cenário. Fátima Costa, da Predicado Comunicação.

Além disso, a realidade cotidiana dos caminhoneiros vem se tornando mais perigosa. Acidentes com caminhões dispararam nas rodovias federais em 2024, com cerca de 9 mil colisões registradas no primeiro semestre — o que corresponde a um acidente a cada meia hora. Em 2023, mais de 13.600 acidentes resultaram em 534 mortes, ou seja, cerca de um óbito a cada 16 horas. A pressão por prazos de entrega acelerados e a falta de pontos de descanso nas estradas são apontadas como causas principais.

Outro risco grave é o uso de substâncias ilícitas por parte de alguns condutores. Um caso emblemático ocorreu em dezembro de 2024, na BR-116, em Minas Gerais: um caminhoneiro envolvido em um acidente com 39 mortes foi flagrado com cocaína, ecstasy, MDA, alprazolam, venlafaxina e álcool no organismo no momento da colisão.

Com tudo isso, a escassez de mão de obra na estrada se intensifica: o envelhecimento da classe, o desinteresse dos jovens, os altos índices de acidentes e a criminalidade compõem um cenário crítico para o transporte rodoviário. Conforme destacado por pesquisas da FETRABENS, mais de 37% dos caminhoneiros autônomos devem se aposentar até 2026 — e sem renovação, o setor pode enfrentar um apagão logístico.


Panorama Complementar

  • Envelhecimento generalizado e pouca atração de jovens: Apenas cerca de 4% dos motoristas de caminhão têm até 30 anos, enquanto mais de 11% têm mais de 70 anos.

  • Redução no número total de motoristas: De 2014 a 2024, o Brasil perdeu cerca de 1,1 milhão de caminhoneiros ativos — de 5,5 milhões para 4,4 milhões.

  • Baixa atratividade da profissão: Segundo CNTA, 54% dos caminhoneiros autônomos desejam sair da profissão; muitos enfrentam jornadas longas (12 h/dia, com média de experiência de 17 anos), baixa remuneração e insegurança nas estradas.

  • Infraestrutura insuficiente: A Polícia Rodoviária Federal registrou apenas quatro áreas estruturadas para descanso — localizadas em Goiás, Tocantins, São Paulo e Santa Catarina — um número insuficiente para um país de extensão continental.


O transporte rodoviário de cargas no Brasil é vital para a economia, mas a degeneração da força de trabalho — com poucas novas gerações entrando na carreira — aliada aos riscos de trânsito, ao consumo de drogas e às condições inadequadas de descanso, demanda ações urgentes. Programas como o “50+” e maiores investimentos em infraestrutura e atração de jovens e mulheres podem ser parte da solução.