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segunda-feira, agosto 31, 2026
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O isolamento individualista que vem nos adoecendo  

Os tempos já foram mais difíceis para nós humanos em nossas sociedades, em muitos aspectos. Ainda assim, podemos perceber um fenômeno perturbador: se hoje a maioria de nós tem acesso a um estilo de vida adornado de confortos, liberdades individuais e praticidades nunca antes vistas, ao mesmo tempo emerge um fenômeno social de alienação, materialismo exacerbado e individualismo. Um paradoxo ocorre nas sociedades ocidentais. Nunca houve tanto acesso a pessoas de todos os tipos e lugares, a tantas possibilidades de relacionamento e de interação, e no entanto a tendência de muitos é o isolamento social e a viciante dependência de objetos e aparatos altamente tecnológicos, dentre os quais o smartphone e telas digitais em geral têm o monopólio da atenção individual.

Na verdade é uma realidade até esperada, diante dos excessos de nosso tempo: excesso de informação, de ruídos, de competitividade, de fugacidade, de cansaço mental; e falta de sossego, estabilidade, saúde mental e disposição ante o comodismo ou o receio. Além disso, tudo — até as pessoas — vem pendendo à objetificação, a um sentido de utilitarismo exacerbado, uma fuga de profundidade e complexidade incrustada na praticidade, otimização de tempo e, mais uma vez, comodismo. Há um justo temor em relação à saúde mental em relacionamentos interpessoais e ocasiões sociais, e o império das redes sociais — viver para postar, mas principalmente postar para viver.

Isso tudo são catalisadores do individualismo e do isolamento social cada vez mais incrustado na malha social, em diferentes sociedades globalizadas e mutantes, notadamente sob o efeito da Internet já submersa nos simulacros da Inteligência Artificial.

Não podemos deixar de falar das redes sociais porque, neste cenário, elas dominam — com cada vez mais recursos e automações, e a personalização que serve a individualidades. Incluem-se os streamings, compras virtuais, serviços variados e a espetacularização da vida nas telas. Melhor editar e mostrar à plateia que apenas viver e desfrutar — essa época já passou. São muitas novidades o tempo todo, há pouco tempo para o que não seja nós mesmos ou para fomentar nossa versão digital.

O preço observável é o enfraquecimento da coesão social, das conexões e laços emocionais entre indivíduos e a erosão de estruturas sociais, as quais se desintegram progressivamente sob nossos pés. A relativização tomou seu trono na Era Digital, agora Era da Inteligência Artificial. Até mesmo o ente humano e o que é humanizado vêm passando pelas transformações do fascinante — mas inconfiável — mundo da IA. Temos chatbots, robôs, efeitos eletrônicos e aplicativos sob medida, de entretenimento ou trabalho.

De maneira que: sim, podemos ser e muitos de nós somos muito ativos nas redes sociais, nos jogos coletivos online (que são um perigo para crianças e adolescentes, em face de pedófilos aproveitadores!) e até no ensino e aprendizagem a distância e personalizados. Tudo se nos oferece com facilidade, não sem custos que são o mencionado cansaço mental, a instabilidade emocional, a introspecção, os danos à saúde mental e até física e, afinal, o isolamento pessoal e comunitário.

São milhares de individualidades aprisionadas (ou autopreservadas) em bolhas de isolamento, onde relacionamentos pessoais e sociais aprofundados, se tornam uma commodity cada vez mais rara. E sim, o isolamento forçado da pandemia de COVID-19 “ajudou” muito a pavimentar o que hoje vivemos agudamente: não nos fez mais unidos e humanitários, como se previa, mas galvanizou modelos de vida focados na independência, no descolamento psicológico e no individualismo materialista.

Como resultado é causa disso tudo, salto nos casos de ansiedade, depressão, TDAH, etc. (quem disse que nossos grandes males psicológicos são apenas genéticos, ou quem saberá o quanto a imersão nas telas nos afeta?). E uma baixa tolerância e pouca resiliência generalizadas, dentro de nossos casulos tecnológicos. Um tipo de frieza, e de pressa contínua, e de necessidade irrevogável de aceitação, aplausos e observação da vida alheia pelas redes sociais — mais que pela convivência com toques, olho no olho, a companhia da presença total e desapegada do “palco digital”.

Menos rodas de conversa, menos desabafos íntimos, menos amizades consistentes, até trabalhar em casa no home office se tornou — é de fato pode ser — muito mais confortável, cômodo e, é claro, individualista.

Mas calma, não quero soar uma velha amarga que repete “na minha época…”. Reconheço que a tecnologia, basicamente o mundo digital, nos presenteou com mais alternativas, diversão, otimização, eficiência e liberdades. Só que as inevitáveis mudanças tecnológicas e sociais são sempre facas de dois gumes, cujos cabos quem segura são sempre mãos humanas. Precisamos ser éticos e responsáveis, preservando nossas habilidades emocionais e condições mentais e as dos outros.

Infelizmente, há uma impressão de que, mais do que nunca, os outros — na verdade a presença dos outros — nunca foi mais “infernal”, parafraseando Sartre. E é claro que estou generalizando, que há muitas nuanças na enorme diversidade de nossos dias e contextos e pessoas. Mas essa multiplicidade de ser e fazer não oblitera as mais estrondosas tendências sociais, refletidas em comportamentos individuais e comunitários.

Assim, percebemos que nos bastam cada vez mais nossos streamings, nossos memes e as postagens intermináveis no smartphone; nossos aplicativos faz-tudo, nossa autopreservação e a prioridade de poupar tempo, incomodações, desgastes e a convivência “crua” com o outro. Realmente, pessoas são difíceis de se lidar, como nós mesmos somos, como é desafiador o viver lá fora, dar a cara a tapa, descolar-se do mundo digital que é um bufê 24 horas para nossas satisfações e necessidades. Para além disso, tudo pode ser conteúdo para postar e repostar, o espetáculo público das individualidades propulsionado pela milenar curiosidade humana, e pela mania de comparação e de parecer bem ou “ajustado” que pode levar a esgotamento mental e crises existenciais.

Quanto a nossas vidas privadas e rotineiras como realmente são, que incômodo seria ter de mostrá-las, para muitos de nós! Mesmo quem somos de fato, se é que sempre podemos distinguir entre o avatar, o perfil e isso que chamamos de “eu” (e id, e ego). Adoramos rótulos, e isso é humano, demasiado humano, mas nunca antes na História foi tão determinante e constante. Tudo quer ser produto, até mesmo pessoas,  relacionamentos e sentimentos, a fim de servir ao individualismo do isolamento.

Mas aí mora o perigo. Pesquisas inúmeras mostram que cada vez temos menos amigos íntimos, em quantidade e veracidade. Vivemos algemados a smartphones e telas variadas, a simulações, a dispositivos eletrônicos e a conveniências personalizadas e por vezes alienantes. Vemo-nos segregados por “árvores de aço” e “estradas de concreto” e, notadamente, muros emocionais. Tudo isso em meio aos infinitos cabos de conexão eletrônica.

Sim, há nisso a solitude, que é a paz e a virtude de se estar só física e emocionalmente; mas há a danosa solidão como uma neblina densa e gélida entre nós e dentro de nós. Quem diria que nos afastaríamos tanto uns dos outros, e por vontade própria, presos inalienavelmente na fenda da impessoalidade e do individualismo e do isolamento?

Longe de mim ser uma luddita, paranoica odiadora de tecnologias e do progresso, como os asseclas de Ned Ludd. Sequer uma agourenta do “caos tecnológico que destrói a humanidade”. Não me dói repetir: é uma faca de dois gumes. E, se temos acesso a informações como nunca antes, busquemos o autoconhecimento saudável, a restauração e avaliação de laços humanos, e a revisão periódica de nossa própria humanidade, presente e futuro.

Tudo isso pretendeu ser um alerta a todos nós, face às armadilhas urbanas e tecnológicas, às mudanças avassaladoras na sociedade ultra moderna que não espera. A confusão que pode ser o estar em um perene olho do furacão. O cuidado é até esforço para não se perder e não perder quem e o que amamos — essas são nossas prioridades. Ninguém devia ser uma ilha, mesmo que repleta de possibilidades e mesmo diante dos perigos do “oceano” em que navegamos. Somos, em nosso barquinho, um coração batendo no mundo. E ainda somos, basicamente, os mesmos humanos, ao menos se não nos privarmos do que somos.

A verdadeira satisfação humana não pode ser apenas individual. Há o contato humanizado com o outro, com o que é natural, orgânico e defectível. Veja que até mesmo nossos hormônios da felicidade se despertam com a interação física, íntima, beijos, abraços, risadas, toques, convívio, pertencimento, e com a presença da natureza ao nosso redor: serotonina, endorfina, dopamina, ocitocina reconhecem nossa necessidade de ligações humanas. Não fomos feitos para submergir no isolamento, não por muito tempo. Viver é utilizar nossos cinco ou talvez até seis sentidos, e não se afastar tanto do mundo de pessoas e humanidades a ponto de, mesmo sem perceber, nos apartarmos da vida em si mesma e de nós mesmos — um coração único e valoroso ecoando no mundo.

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