Há poucos dias, em 27 de janeiro de 2025, o mundo celebrou os 80 anos da libertação dos prisioneiros em Auschwitz, o maior campo de concentração do ditador nazista Adolf Hitler. Em meio a esse fato, o primeiro trilionário da História, o neoliberal capitalista Elon Musk, foi acusado por muitos de apologia ao nazismo em seu discurso na posse do segundo mandato de Donald Trump: devido a um gesto que partiu do lado esquerdo do peito, e com uma fala que se assemelhava a algo como “meu coração vai para vocês”, no caso o público, o magnata sul-africano de cidadania norte-americana despertou fúria, em especial dos esquerdistas, e desconfiança massiva. Apesar de tal gesto, de mão estendida, ser comum na política e até na área jurídica (uma está relacionada à outra), inclusive representa juramento. Seus primórdios datam da época da república romana.
A despeito disso, toda essa discussão sobre Elon ainda ferve nas redes, e nos levam a um questionamento que pode parecer descabido à primeira vista, mas a historicidade nos revela que não é: Hitler, afinal, era um legítimo representante da Extrema Direita? Era no fundo um extremista de Esquerda? O que o ditador insano e o partido nazista da Alemanha eram?
Poucos sabem, ou sequer procuram saber, mas esta questão ressurge com frequência nos debates contemporâneos. Enquanto alguns apontam o nome do partido nazista (“Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães”, o Partido dos Trabalhadores da Alemanha, fundado por Hitler) como evidência de que se tratava de um movimento de Esquerda, outros argumentam que a ideologia e as práticas do regime se alinham claramente à Extrema-Direita. Para esclarecer esse dilema, é essencial examinar os conceitos políticos históricos e suas práticas, correlacionando-os a princípios e ações do nazismo.
ELEMENTOS DE DIREITA E DE ESQUERDA
Um fato é que Hitler pretendia combater o socialismo marxista. Alguns dos primeiros prisioneiros – não apenas judeus, mas povos eslavos, gregos, muçulmanos, religiosos cristãos, criminosos etc. – já eram declaradamente comunistas, motivo de serem confinados em campos de concentração. Por outro lado, conforme testemunhos registrados de sobreviventes do Holocausto, Hitler prendeu e escravizou até mesmo aliados do ditador Franco, de Extrema-Direita. Aparentemente, o prussiano queria minar todos os opositores do III Reich, o “Novo Império” que dominaria o mundo.
Assim, o que a História nos aponta é que o nazismo incorporou elementos de ambas as vertentes políticas, Direita e Esquerda. Por um lado, incentivou um nacionalismo extremo, o culto ao líder, a supressão de oposição e a defesa de uma hierarquia social rigidamente estratificada — características comuns em regimes de Extrema-Direita. Em contrapartida, adotou políticas intervencionistas na Economia semelhantes àquelas vistas em regimes de Esquerda, sempre com o objetivo de fortalecer o Estado e a indústria para fins militares e expansionistas.
A HISTÓRIA DE HITLER
Adolf Hitler era um soldado pobre e humilhado pela derrota na I Guerra, atribuída por muitos e por ele mesmo ao financiamento dos ricos banqueiros judeus contra a Prússia. Nessa época, o antissemitismo já era antigo na Europa e em outras partes do planeta. Para se ter uma ideia, durante a Peste Negra culpava-se os judeus por terem contaminado a água e provocado a pandemia. Além disso, judeus nunca foram bem aceitos na Europa e entre os povos árabes, principalmente os muçulmanos, o que persiste na atualidade através da Jihad ou Guerra Santa dos seguidores de Maomé. Somente em 1948, no pós-guerra, conseguiram um território só seu, ainda que contestado por alguns países quanto à sua legitimidade.
Pois este cabo de bigodinho e origem austríaca, Adolf, queria vingança. Começou fazendo discursos inflamados que elevaram a autoestima do povo, essa massa que, como ele, se sentia humilhada e enfraquecida em uma Alemanha arrasada, econômica e moralmente, pela I Guerra Mundial. Buscou aliados e fundou o Partido dos Trabalhadores da Alemanha, conhecido como partido nacional-socialista alemão, alcunha esta que nunca foi modificada ao longo da história do nazismo. Até os livros da extensa biblioteca de Hitler eram marcados com o símbolo do partido nacional-socialista alemão.
Enfim, a ascensão nacionalista e estadista hitleriana pode nos remeter ao surgimento de grandes líderes de Esquerda, muitos deles em países destruídos tal qual a Alemanha. Como Lênin, Mao Tsé, Fidel Castro e, bem, outros na América do Sul até o presente.
AS ALIANÇAS DE HITLER
Hitler chegou a ser preso por alguns meses. Lá, escreveu a obra “Mein Kampf” (“Minha luta”). Fez alianças com setores conservadores da elite e da burguesia industrial, que eram opositores ao regime e às propostas revolucionárias da Esquerda tradicional. Assim como combateu com diligência todo regime ou grupo social que pudesse ameaçá-lo e ao poderio militar e político da SS.
Ao mesmo tempo, aqui encontramos um elemento que não costuma estar presente na Extrema-Esquerda tradicional: a metafísica, o ocultismo, a crença que ultrapassa a racionalidade e o poder do Estado racionalista, embora com veementes táticas que recorrem à emoção do povo. É sabido que Hitler e a SS mantinham práticas ocultistas, por alguns chamadas de satanistas, e há testemunhos de contatos com seres extraterrenos da parte de antigos generais nazistas, que até teriam lhes auxiliado na guerra. Criptas de rituais secretos da SS foram descobertas, e Hitler mantinha grande interesse em práticas espiritualistas e comportamentos relatados como estranhos, possivelmente relativos, também, à sua conhecida infecção por sífilis que resulta em progressiva demência. Alegava ter contraído a doença de uma judia aos 19 anos, mais um motivo para detestar os judeus.
Mas falando na filosofia da Extrema-Esquerda: ela costuma ser cientificista, avessa a religiões e crenças que ameacem a soberania do Estado, escapando à espiritualização. “A religião é o ópio do povo”, disse o esquerdista Marx. Na China, queimou-se igrejas e crucifixos em 2023, e, a partir de 2024, nenhum culto religioso é permitido por lá. Semelhante perseguição religiosa se dá na ditadura também comunista na Rússia – antes URSS – e na Coreia do Norte, por exemplo.
NAZISMO: UM CASO ÚNICO QUE JAMAIS SERÁ ESQUECIDO
Talvez devamos considerar o nazismo um caso único na História: é repudiado pelos esquerdistas, mas tampouco os direitistas, capitalistas e neoliberais, têm demonstrado aprovação explícita ao regime nazista. Até porque envolveu o Holcausto de milhões de judeus: direitistas, como Trump e Musk, costumam se posicionar como pró-Israel e pró-democracia, em desfavor de regimes ditatoriais. Hoje, não há nenhuma ditadura de Direita no planeta, apenas comunistas/socialistas ou religiosas, a maior parte destas islâmicas, portanto, não-laicas. Os movimentos neonazistas insurgem em casos isolados, embora ainda representem perigo, é verdade que menor em relação aos regimes ditatoriais estabelecidos que vivem envoltos no perigo da fabricação de armas nucleares.
Portanto, sobre a posição política de Hitler, olhando com mais acuidade os inúmeros relatos de sobreviventes – e não-sobreviventes – dos campos de concentração e do regime nazista de Hitler, não é difícil supor que o furioso Führer atacou todos os lados que pudessem ameaçar seu império. Dizem que era católico, e de fato parece que foi criado nessa crença, mas é fato que pretendia criar uma nova religião: a religião nazista do III Reich, de um povo superior, ariano, após eliminar os fracos, os geneticamente inferiores e os inimigos. O obstinado e irrefreável ditador se empenhou em esterilizar milhões de mulheres e recorreu a experimentos horrendos visando a limpeza racial, política e ideológica.
Por isso, até hoje a palavra “limpeza”, quando utilizada em relação a pessoas, soa absolutamente abjeta e nos traz arrepios de tantos massacres étnicos, principalmente o nazista.
Para terminar, creio que a maneira mais fácil de considerar toda essa querela sobre Direita e Esquerda relacionada a Hitler e ao nazismo, seja concentrá-la no lugar adequado: o do repúdio ou não-repúdio a regimes totalitaristas, ditatoriais, sangrentos. Não se pode ser anti-nazista ou anti-fascista, mas financiar e apoiar ditaduras. Só mudam as vítimas e os motivos. Ou você é um combatente dos regimes ditatoriais, ou você não é. Não se pode ser vegano, mas comer apenas carne de boi. Ou você é vegano ou não é.
Sejamos nós pendores da liberdade individual. Essa convicção não exclui a luta sempre necessária pelas minorias, de maneira que todos sejam iguais perante a Lei, governantes e governados, na democracia sendo o povo supremo. O Estado, em uma democracia realista, deve servir ao povo e não a si mesmo em primeiro lugar, uma vez que, na raiz democrática, o poder máximo emana do povo e seu pleno direito ao voto auditável, não-coercitivo e secreto.
Fica a impressão de muitas incongruências e desconexões nos discursos de muitos políticos e militantes, como no Brasil: pinçam partes de ideologias e excluem outras, defendem o que dizem combater direta ou indiretamente, nutrem ódio e preconceitos e pregam amor e aceitação.












