20.4 C
Rio Grande do Sul
sexta-feira, agosto 28, 2026
Home- ÚLTIMAS NOTÍCIAS -O caso Léo Lins e a “utilização política tendenciosa do humor”

O caso Léo Lins e a “utilização política tendenciosa do humor”

Nunca fui exatamente sua fã, até meio que o contrário disso. Por isso tento ver, apenas tento, com a maior imparcialidade possível. A despeito de o assunto estar “batido”, é inevitável enfrentá-lo e nele buscar novas percepções e reflexões, para além de “os limites do humor e da liberdade de expressão” em uma visão superficial e, pior, politizada.

Para quem não sabe, em suma: Léo Lins foi condenado a oito anos de prisão por piadas preconceituosas durante o show de stand-up denominado “Perturbador” (o nome já diz tudo). A condenação responde à ação do MPF de 2023, que denunciou conteúdos em que o humorista faz uma série de ofensas contra grupos vulneráveis e minorias. A juíza do caso sentenciou que atividade artística de humor não serve como “passe-livre” para prática de crimes. Além da pena, deverá pagar indenizações por danos morais coletivos.

As acusações saltam de um vídeo gravado em 2022, em que o humorista Lins faz declarações contra idosos, negros, obesos, HIV positivos, indígenas, homossexuais, evangélicos, nordestinos, judeus e portadores de deficiência. Parece pesado. Confesso que não vi o conteúdo e não quero ver. Nunca. Em 2023, foi retirado do ar por decisão judicial, com mais de 3 milhões de visualizações em certa plataforma.

Sobre a decisão judicial, cabe recurso.

O CASO LÉO LINS E A” UTILIZAÇÃO POLÍTICA TENDENCIOSA DO HUMOR”

Paira sobre muitos uma visão superficial e, pior, politizada do humor – vi poucos falarem nisso. Ao menos indo um pouco mais fundo. No caso Léo Lins, trata-se de mais que agressões passíveis de punição a seres humanos, e todos nós temos motivos para sermos alvos de chacota; é claro que as minorias costumam sofrer mais. Trata-se de algo que tem me chamado a atenção e que vou chamar de “utilização política tendenciosa do humor” no caso Léo Lins. O nome não é simples nem cativante, mas me parece quase adequado ao que tenho ponderado.

Pondero enquanto vejo vários artistas se pronunciando a favor do humorista, da liberdade de expressão, e vários direitistas, e alguns que até fizeram o L e ainda – surpreendentemente, em nossa caótica situação econômica, social, moral e ambiental – fazem. Outros alçaram a voz condoreira contra as “aberrações” das piadas. “Tudo tem limite, até o humor.” É claro, foram ofensas. É claro, está na Lei brasileira que ofensas e preconceitos insidiosos devem ser punidos. Mas a acusação e a punição não podem ou devem ter lado político e nem serem politizadas.

Leio no portal MSN que Pedro Cardoso, o sumido Agostinho Carrara de “A grande família”, apareceu para mencionar palavras-chave da Esquerda sobre Léo Lins: “O stand up comedy virou um ninho de ideias fascistas, o ovo da serpente” (nenhum lulopetista, eles que utilizam tanto o termo “fascista”, jamais me explicou exatamente o que ele significa, de forma concreta e sem atrelar ao bolsonarismo). O “eterno Agostinho” daquele bom programa de humor em que seu personagem retratava a malandragem de muitos brasileiros, continuou: “Discurso de ódio”; e arrematou o sumido Pedro Cardoso: “Na verdade tem caráter político”.

Pronto. Pedrinho politizou tudo. A mim parece que apontou que ofensas fascistas como supostamente são as de Léo Lina devem ser punidas. O ponto vital do ator: o fascismo, não as ofensas a seres humanos. A militância política.

Ofensas são ofensas, independentemente do lado político ou de se ser artista ou não, humor ou não. E, a priori, qualquer coisa pode ofender alguém, cada um tem seus “gatilhos”.

Imagine os Mamonas Assassinas hoje…

Não, melhor você não imaginar.

FASCISMO? NAZISMO? ESTA DITADURA É BOA, AQUELA NÃO? MEU CASO

Por vezes sou chamada de “fascista”, ou até “nazista”. Ou, como é mesmo aquela pérola de um professor de Português que utilizou um perfil fake para me ofender? “Eva Braun tupiniquim.” Criativo. Digno de um professor de Português que, no perfil real, prega justiça social e acolhimento. E, claro, é ferrenho petista. E eu não sou petista. Mas ousei criticar seu candidato de estimação, seu governo querido.

Não é só ele.

Já recebi ofensas, principalmente nas redes sociais, de praticamente todos os lados, porém não me engano: ocorrem muito mais quando critico o governo Lula III, e olha que não me considero portadora de político (ou ao menos presidente) de estimação. E que, na verdade, estou cansada dessa polarização, apesar de nos permitir avaliar fatos e informações e tomar posições e ter opiniões.

Uma pincelada no meu “infinito político particular”: vejo, e gostaria de desver o fato de que os maiores aliados do Brasil hoje são ditaduras violadoras de Direitos Humanos (como são todas as ditaduras). E que estão vendendo a Amazônia para China, Rússia, França. E prejudicando a indústria nacional em favor de contratos vantajosos para os chineses, mas nem tanto para a terra onde já cantou, mas hoje tem medo de cantar, o sabiá.

O governo Lula deseja representantes chineses para ensinarem a regular as redes sociais, não bastasse o rigoroso Programa de Combate à Desinformação (PCD) do STF, chefiado pelo “perdeu, mané” e “vencemos o bolsonarismo” ministro Barroso (soa um pouco parcial?). Os motivos da visita dos partidários de Mao? Pergunte a pessoas como Pedro Cardoso – ele é só um exemplo, a voz de muitos, repetida, vejo todos os dias: combate ao discurso de ódio, ao fascismo, ao bolsonarismo etc.

Nunca consigo não falar de censura. É uma ferida que tenho e não cicatrizou. Por isso, seja sobre humor ou não, o pináculo desse debate é a censura. E a censura politizada.

Muitos falam em ódio, fascismo e proteção a minorias, mas eles mesmos cospem discursos de ódio e apoiam um governo que apoia e financia ditaduras e golpistas como Maduro, países onde não há nenhuma liberdade de expressão se o governo quiser calar. Resumindo: censura institucional em nome do combate ao ódio, da defesa da democracia, dos Direitos Humanos e das minorias… zzz. Pueril. O que não exclui a necessidade de moderar discursos ofensivos, mais que opiniões.

Sei o que são ofensas, como aventei. Dou muita opinião. Já tive, digamos, retaliações que prefiro esquecer. Exceto uma recente, a de Cibele nutricionista, colunista (confirme se alegou) do Portal Brasil 247 (2+4+7 = 13, quase enigmático). Perguntou-me se eu era filha do Fred (Freddie Krueger, o monstro, piada velha, mas sempre ofensiva e dura de engolir), e me chamou de “fascista”: ah como certas pessoas gostam de falar nessa que é apenas uma das modalidades de ditadura, o fascismo, e toda ditadura no fundo é bem parecida. Ainda questionei a Cibele se me chamou mesmo de fascista, ao que não titubeou: “Sim, chamei”. “Você se considera acima da Lei?”, insisti, e ela curtiu, entendi que consentiu. Estou bloqueada agora. Não que isso me importe.

Será que a ofendi por não concordar com ela?

HUMOR É INEVITAVELMENTE POLÍTICO E PERIGOSO: ENVOLVE REALIDADES

Para além dos ataques que recebo nas redes, que são problema principalmente meu, mas ao mesmo tempo têm escopo social, político e de natureza humana que parece cada vez mais belicosa, para além disso, pensemos no discurso em relação a liberdade de expressão, ofensas e preconceitos. Inclusive no humor, que muitas vezes remete ao ridículo da vida e ao “rir para não chorar”. O humor não pode ser politizado e está sendo por muitos. Tampouco quero politizá-lo, aliás, quero “despolitizá-lo”.

Léo Lins se tornou, como quase tudo hoje no Brasil, um Mar Vermelho de divisão política, antes de uma demanda humanitária. “Só ofende quando é contra o que eu penso.” “Quem pensa como eu pode ofender quem não pensa como eu.” “Pare com bobagens (quando a coisa não é com você, ou com os que pensam como você)”.

Sobre Léo Lins?

Acho exagero 8 anos de prisão, embora Luana Piovani, com quem ora concordo, ora divirjo, ache que não seja pouco. O fato é que ninguém pode estar acima da Lei e a Lei é para todos: então, o que resta aos que me ofenderam repetidas vezes, ou saem atordoando indivíduos e grupos sociais por aí por, quem sabe, apenas serem antipetistas ou boldonaristas. Os rótulos são pesados, de chumbo talhado em intolerância: “minion”, fascista, nazista, não apenas por não fazer o L mas também pela descendência alemã. Preconceito estrutural, como eles gostam de falar.

Quanto a mim, mal sabem que meu sobrenome alemão é russo, meu bisavô paterno nasceu no Império da Rússia e se mudou para o país tropical com sua família de origem russo-germânica. Já os bisavós de mãe casaram-se na República Tcheca e vieram para o “país das oportunidades com muitas terras”. Ambos alegavam sempre que haviam fugido do comunismo, isso se sabe entre nós familiares. E ainda tenho alemães de nascença na árvore genealógica, mas nunca os vi serem fascistas ou desrespeitosos. E se foram, qualquer um poderia ser: raça, cor, credo etc. não devem definir caráter ou punição. Assinado: Constituição Federal de 1988. Um bebê democrático, ainda aprendendo o que é e o que não é democracia.

PRECONCEITOS: DEMASIADO HUMANO

Preconceitos todos nós temos. Erros, todos nós cometemos. Mas quanto vale um insulto? E dois, e dez, ou a repetição deles? E de quem contra quem? Algum motivo pode justificar um insulto? O que é ser fascista, não ser lulopetista ou esquerdista? É ter descendência alemã? É, como no caso Nikolas Ferreira, ser culpado indiretamente porque o primo foi pego com drogas? Então se meus antepassados foram nazistas eu sou também? Não estou falando apenas sobre mim. Falo sobre você. Sobre nós. Sobre preconceitos que só vemos nos outros e não em nós mesmos, hipocrisia e dois pesos, duas medidas calculadas por rótulos políticos.

E afinal o que me cansa neste imbróglio todo de Léo Lins é “o papel do humor” e a politização.

Liberdade de expressão, a gente nunca sabe direito até onde vai.

Depende de quem julga, do que essa pessoa carrega consigo. Há sempre mão humana na Lei. Embora devesse haver menos, no sentido de interpretá-las, em muitos casos. Há Lei que é Lei e pronto. Mas as ofensas citadas na Constituição Federal do Brasil, tão relativizada ultimamente por alguns, estas se deve punir mais. Não sem igualdade para todos os lados políticos e estratos sociais. Imparcialidade, na medida do possível. Mais uma vez: não julgue a dor e os traumas de alguém pela dívida histórica ou a falta dela a partir de seu nicho social. Não julgue um nicho social sem considerar individualidades, essa é a maior diversidade a ser respeitada.

Paulo Gustavo, que saudade! Você tinha razão: “Rir é um ato de resistência”. Resistência ao mundo, às realidades, à ignorância, ao mau-humor. Nunca falou muito sobre política, até dizia que não entendia. Mas fez muita piada ilustrando – e a meu ver a palavra é essa, “ilustrando” – preconceitos contra gays e pobres. Foi gay, havia sido pobre. Fez piadas com a nata da sociedade. Ficou rico. Ironizou gente preta, gente branca, gente feia, gente bonita, mãe-de-santo, fumantes, gordinhos, malandros, andar de avião. Queria rir, e por que não conscientizar? Alguém pode ter se ofendido? Certamente, é um risco.

Então a que conclusão eu chego?

Cada caso é um caso no humor, que sempre foi forma de retrato satírico social e político. “A arte imita a vida.” A arte e o humor sempre incomodaram a muitos, mas foram válvulas de escape ou voz ativa de tantos outros.

O humor existe na natureza humana. Somos o país dos memes. Mas, afinal, ofensa pessoal degradante ou generalizações agressivas (qual é o limite para isso?) não podem ser perdoadas pela Lei. Dar opinião sim, se achar que deve, porém tentando não agredir. Nunca veremos completamente o lado do outro, e há pessoas “boas” e “ruins”, mimizentas ou sensatas, por toda parte. Muito disso tudo é mimimi – os limites do humor, estamos reclamões e pouco resilientes.

E acho que esta é a maior lição: respeito às pessoas, não apenas a este ou aquele grupo social ou político ou racial. Acho que nos dividimos demais para colidir muito. Tenha mais argumentos e baixará sua voz. Os direitos são chamados de “humanos”, é abrangente. Direitos Humanos.

Mas eu estaria esperando demais da natureza humana, não…? Veja a História. Chacota é bom com os outros, nunca com nós mesmos. Somos sempre fortes candidatos a donos da razão, ainda mais se temos poder. E sabemos como punir.

O caso Léo Lins: eu gostaria de que as leis fossem mais “secas”, fáceis de se aplicar cirurgicamente. Mas a natureza humana é complexa. E somos seres políticos, como disse Platão. Como ser politizado sem incomodar a ninguém? Como ser quem somos sem perturbar nada? Como fazer humor totalmente inofensivo e ingênuo? Impossível. Humor é, quase sempre, malícia. Sarcasmo. Fel adocicado.

Podemos tentar ser mais cuidadosos, pacíficos – não indiferentes – e ver as coisas por outros ângulos. Mudar, talvez. Só idiotas nunca mudam, e permanecem sempre com as mesmas palavras, opiniões e pensamentos, mesmo que a vida lhes esfregue na cara o contrário. Teimosia não significa convicção. Humor não significa agressão, mas pode eventualmente ofender porque expõe realidades ou versões delas. Nosso planeta é cheio de realidades cruéis. Brincar – até que ponto? Não sei, mas não sejamos aproveitadores politizados do humor e dos humoristas para espalhar ódio e injustiça.

“Utilização política tendenciosa do humor.” E até do amor, travestido de leniência e ao mesmo tempo incompreensão.

Humor não deve ser julgado ou realizado a partir de lentes politizadas partidárias. Cada um faça seu humor para seu público, e avisos de faixa etária e conteúdos “perturbadores” devem existir. Há humor em stand ups, séries, filmes, peças de teatro, quase tudo. Mas o que resta ao comediante e ao ser humano no âmbito social? Tentar “maneirar” enquanto procura agradar a quem lhe interessa fazê-lo. Mas maneirar até que ponto? Repito, não sei até que ponto o humor sempre político será absolvido.

Só peço que não utilizem Léo Lins e o humor como militância cega e repleta de ódio, sob a capa frágil de defesa das minorias, antifascismo vago, democracia relativa e combate ao ódio. Talvez seja pedir muito a todos nós.

- Publicidade -

Mais populares

Feito com muito 💜 por go7.com.br