Cercado por vizinhos de esquerda que simpatizam com as ditaduras de Venezuela e Nicarágua, o Uruguai tem sido uma voz destoante na região. A posição coloca em xeque até o seu futuro no Mercosul, à medida que o presidente conservador, Luis Lacalle Pou, defende um acordo de livre-comércio com a China, o que pelas regras do bloco só poderia ser fechado por consenso.
Recentemente, Lacalle Pou bateu de frente com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que havia elogiado o ditador Nicolás Maduro durante o encontro de presidentes sul-americanos em Brasília, em maio. “Se há tantos grupos no mundo tentando mediar a volta da democracia plena à Venezuela, para que haja respeito aos direitos humanos, o pior que podemos fazer é tapar o sol com um dedo.”
Diego Hernandez Nilson, professor de relações internacionais da Universidade da República, de Montevidéu, diz que Lacalle Pou até tentou o melhor dos dois mundos, mas não conseguiu. “Quando Bolsonaro estava no poder, o Brasil sinalizou que poderia apoiar uma reforma no Mercosul que faria com que o Uruguai fechasse um acordo com a China e ainda continuasse no bloco. Mas com Lula isso não é mais possível”, afirma.
O Uruguai defende uma abertura econômica, acusando o Mercosul de protecionismo. Em julho, na última cúpula do bloco, em Puerto Iguazu, na Argentina, Lacalle Pou não assinou o comunicado conjunto pela quarta vez seguida.
O presidente uruguaio chegou a pedir que os demais países participassem das negociações com Pequim. “O Uruguai tomou a decisão de avançar em um acordo com a China. Se for junto com o Mercosul, melhor”, disse.
Segundo Camilo López Burian, professor de ciência política da Universidade da República, a política externa de Lacalle Pou foi costurada junto com setores do mercado financeiro e do agronegócio, que têm interesse em um acordo comercial.
“Lacalle Pou sabe que política externa não ganha eleições, mas serve para obter apoio interno. Então, quando ele fala sobre a importância do acordo com a China, está falando com os exportadores, com o setor agrícola e com importadores que podem comprar barato da China e vender aqui, o que agrada o agronegócio”, afirmou.
Antes de se encontrar com Lula, em visita do brasileiro a Montevidéu, em janeiro, o uruguaio afirmou que o país está “aberto para o mundo”. Lula até colocou o Mercosul disponível para negociar um acordo com a China, apesar de o foco ser o tratado com a União Europeia, negociado desde 1999.
Contudo, um acordo de livre-comércio entre Uruguai e China e a continuidade do país no bloco não é possível para o Brasil. Segundo o assessor especial da Presidência e ex-chanceler, Celso Amorim, o Mercosul precisa ser preservado.
A dificuldade de preservar o lugar do Uruguai no Mercosul e um acordo com Pequim é a Tarifa Externa Comum (TEC), que o Mercosul adota desde 1995 para padronizar a alíquota de importação de produtos de fora do bloco.
Um acordo entre Pequim e Montevidéu faria com que a TEC não fosse cobrada para produtos chineses no país vizinho. O Uruguai abriria seus mercados aos produtos chineses em troca de tarifas mais baixas sobre a carne bovina exportada para a China.
Durante o governo de Bolsonaro, Uruguai e Brasil chegaram a discutir uma flexibilização da TEC, que possibilitaria um acordo sem prejudicar a relação de Montevidéu com o bloco. A ideia também era defendida pelo ex-presidente da Argentina, Mauricio Macri, mas seu sucessor, Alberto Fernandez, foi contra. “Entre 2021 e 2022, houve um avanço no acordo. Mas, com Lula na presidência, esse acordo fica difícil e não deve acontecer”, disse Nilson.
Já a possibilidade de um tratado de livre-comércio entre China e Mercosul é considerada remota, segundo Burian, porque todos os esforços estão concentrados na UE. Além disso, nem todos os países do bloco têm relações diplomáticas com a China, o que dificulta a negociação. O Paraguai mantém laços históricos com Taiwan, o que afasta os chineses da mesa de diálogo.
O chanceler uruguaio, Francisco Bustillo, chegou a afirmar que Montevidéu considera a possibilidade de virar um Estado associado do bloco, com menos responsabilidades e mais liberdade comercial, mesmo sem voto nas decisões.
Para Burian, existe consenso no Uruguai que o Mercosul deve ser melhorado, mas que a retórica de Lacalle Pou é mais dura do que a de presidentes anteriores, como José Mujica e Tabaré Vázquez. “A necessidade de reforma no Mercosul é uma pauta antiga no Uruguai e foi defendida pela esquerda e pela direita, mas isso nunca implicou em cortar laços com o Mercosul ou se distanciar dos países da região. Por isso, o discurso de Lacalle Pou é mais inflexível”, disse Burian.
Segundo ele, o Uruguai pode até sair do Mercosul, mas alguns setores da economia, que se beneficiam do bloco, seriam prejudicados. “Sempre há vencedores e perdedores. O governo uruguaio precisaria discutir mais isso, porque o Brasil pode optar por retaliações”, afirmou.
Ainda de acordo com Burian, existem temores sobre uma possível dependência economia do país, caso o acordo com a China saia do papel. “Se o Uruguai tivesse um tratado de livre-comércio com a China, em vez de ter mais abertura e liberdade, teria uma maior dependência econômica, incluindo maior impacto ambiental.”
Nilson não acredita que o Uruguai deixe o Mercosul, porque a economia do país depende do bloco. Além disso, Montevidéu sabe da importância das relações com Brasil e Argentina, que ficariam comprometidas em caso de mudança. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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