Grande parte da América Latina, incluindo o Brasil, tem mergulhado em profunda crise econômica, social, ambiental e democrática. Essa situação aterradora parece ter se acentuado em 2025. Pour outro lado, já é bem comprovado, por inúmeros estudos, que a qualidade de vida e a estabilidade econômica têm forte impacto na saúde mental, inclusive nos casos de suicídio ou tentativas de cometer o ato. Sim, este tema é delicadíssimo. E não se deve, de forma alguma, romantizar o assunto, muito menos desprezá-lo. Portanto, precisamos falar do crescimento de casos de suicídio na América Latina, buscando alternativas a curto, médio e longo prazos para sanar essa mácula que muitas vezes é velada na sociedade.
Enquanto casos de suicídio vêm diminuindo em vários países de Primeiro Mundo, vemos emergir uma crise de saúde pública silenciosa na América Latina: por que tanta gente, de crianças a idosos, estão tirando suas próprias vidas? Dados recentes apontam um aumento preocupante nas taxas de suicídio latinas. É um fenômeno multifacetado que precisa ser gritado, para além de todos os estigmas e de toda incompreensão.
Já houve tempos melhores. Historicamente, a América Latina apresentava taxas de suicídio mais baixas em comparação com outras regiões do mundo. Mas essa realidade mudou. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o suicídio é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos nas Américas — sim, são eles as principais vítimas, adolescentes e jovens adultos em fases de aceitação, adaptação e transição, diante dos desafios da vida. Os números específicos por país variam, porém a tendência geral é de alta em diversas nações latino-americanas. Por exemplo, pesquisas apontam aumentos significativos em países como Brasil, Colômbia e Chile nas últimas décadas.
E, se tivemos a pandemia de COVID-19, com seus impactos socioeconômicos e o agravamento de problemas de saúde mental, ela estendeu seus tentáculos para intensificar ainda mais os casos de quem desiste de viver. Uma palavra perigosa, até assustadora, muitas vezes evitada e censurada, mas que precisa ser dita: suicídio.
Estamos vivendo uma pandemia de casos de suicídio na América Latina.
Por quê?
As causas do aumento de casos de suicídio, especificamente na América Latina, são complexas e estão interligadas. Temos a fragilidade dos sistemas de saúde mental na maioria dos países da região, por exemplo. Temos uma vultosa carência, e generalizada, de profissionais capacitados, recursos financeiros e infraestrutura adequada para atender à demanda crescente. Em países engolidos por tantas crises socioeconômicas, muitas vezes a saúde mental é vista como um luxo — não como prioridade que é.
Crises socioeconômicas, aliás, são um novelo de problemas crônicos na América Latina. Desigualdade social, desemprego, pobreza, violência e tráfico de drogas, assim como dependência química de lícitos e ilícitos, são fatores estressores que vêm minando a saúde mental das populações. Além disso, há a falta de perspectivas futuras, notavelmente entre os jovens — isso pode levá-los a sentimentos de desesperança e até desistência. Também crianças, pessoas mais velhas e idosos, como comentamos, são alvos da falta de estabilidade socioeconômica na América Latina; e da crise de valores e princípios que culmina em ódio, autocracia, guerras político-partidárias implacáveis e no declínio da qualidade de vida.
Assim, é necessário quebrar ou ao menos suavizar os “fantasmas” em volta dos problemas de saúde mental como o suicídio — até mesmo para digitar essa palavra deve-se ter cuidado. Ela soa ameaçadora, e de fato é. Sempre houve dificuldade para se falar abertamente sobre depressão, ansiedade ou outros transtornos, ainda que hoje a Era da Informação globalizada pelas redes nos venha trazendo alento.
Só que os tais estigmas permanecem. Muitas pessoas não procuram ajuda profissional, ou sequer sabem onde e como procurar. Os tratamentos muitas vezes são caros, terapia e medicamentos, e os sistemas de saúde pública, mais uma vez, não conseguem atender ou abarcar essa crise social-existencial. E há a cultura do “aguente firme” ou “resolva sozinho”, “você consegue”, um excesso de positividade que pode se tornar tóxico e que perpetua o silêncio e impede o acesso a conscientização e tratamentos.
Para muita gente, saúde mental ainda é “frescura”, como dizemos no Rio Grande do Sul. “Falta do que fazer” — já ouvi isso de médicos experientes. Eles que, nos cursos de Medicina, e isso até hoje, não têm acesso a um aprendizado holístico da saúde humana: corpo são em mente sã, e vice-versa. Sei que muitos estão assumindo a voz para falar de saúde mental, inclusive suicídio, e muitos profissionais de saúde. Mas o caminho é íngreme. A alma humana é vastíssima — e aqui estamos falando, inalienavelmente, de “alma”, que são sentimentos, emoções, vazios e anseios profundos.
CYBERBULLYING E PRESSÃO DAS REDES SOCIAIS
Precisamos admitir que as redes sociais e a Era Digital, assim como, mais recentemente, a Inteligência Artificial (IA), têm mexido com nossa cabeça e até nosso corpo. Estudos são profícuos e, por vezes, alarmantes. Os efeitos adversos da dependência do mundo virtual, inclusive no hipocampo do cérebro, são uma face dessa Quimera que é o suicídio na sociedade da América Latina. Adolescentes e jovens adultos são os mais atingidos pela exposição a comparações e a idealizações de vidas perfeitas — que sempre estão longe disso, mas simulam cada vez melhor.
Redes sociais podem gerar angústia e baixa autoestima, contribuindo para o sofrimento psíquico. Mas isso, e quero deixar bem claro, nunca explicará a censura estatal. A livre-expressão, se dentro da Lei — norteada por difamação, calúnia e injúria, por exemplo — está na nossa Constituição Federal e faz parte de toda democracia.
Outro ponto é que o comportamento nas redes sociais é um reflexo do estado mental das pessoas: sua insatisfação, frustração e confusão mental na “vida real”. A Internet se torna um refúgio frágil, que às vezes é útil, “mocinho”, e às vezes “bandido”.
As pessoas estão com muita raiva no Brasil, o que é uma das expressões mais desnorteantes da tristeza.
MAS E AS SOLUÇÕES PARA O AUMENTO DE CASOS DE SUICÍDIO NA AMÉRICA LATINA?
É muito mais fácil, e sempre foi, apontar problemas que soluções. E de fato, encontrar alternativas eficazes para problemas complexos é um desafio até para sistemas neurais poderosos de Inteligência Artificial, imagine para o cérebro humano. Novamente, precisamos enfrentar. E precisamos falar o que: o crescimento do suicídio na América Latina e no Brasil. Danem-se os considerados “fortes” — todos nós temos nossos “calcanhares de Aquiles” e precisamos de um mínimo de suporte emocional. Não somos super-heróis e nunca seremos, por mais que se tente idealizar pessoas e suas vidas. Todo mundo é “humano, demasiado humano” (Nietzsche). Ninguém está acima desta lei que nos impõe fragilidades, apenas se enganam.
Mas falávamos em soluções. Porque não basta abordar o problema, é necessário destrinchar caminhos para mudar a sociedade e, nela, os indivíduos.
Em primeiro lugar, falta investimento não apenas em Saúde, mas em Saúde Mental. Verbas substanciais foram cortadas para a Saúde no Brasil nos últimos tempos, esse Brasil que não consegue nem controlar a dengue, não há vacinas e prevenção, imagine o “luxo” da prevenção e tratamento de casos potenciais de suicídio. É saúde pública, mais uma vez! Os governos latinoamericanos precisam investir mais em contratação e formação de profissionais e estruturas de acolhimento para psicólogos, psiquiatras, enfermeiros especializados, centros de atendimento acessíveis; e, finalmente, a integração da saúde mental nos cuidados de saúde primários.]
Não menos importantes: mais campanhas de conscientização e de combate ao estigma do suicídio, que é o ápice de inúmeros problemas de saúde mental e pública. Desmistificar o suicídio, e os transtornos mentais relacionados a ele. Insistir na divulgação de informações, na promoção de empatia e da compreensão é crucial para derribar estigmas antigos e resistentes.
Para além disso, fortalecimento de redes de apoio social — por exemplo, programas comunitários de bem-estar social, resiliência e coesão social. Aqui, a participação de voluntários é muito importante. Ademais, treinamento de profissionais de saúde e educadores para identificar sinais de alerta de sofrimento psíquico, e como lidar com o bullying e as diferenças entre as pessoas. Cito a regulação e o monitoramento do acesso a meios legais, como armas de fogo — não defendo a extinção do porte, mas sua fiscalização eficiente — e substâncias tóxicas.
Mais: apoio psicológico que começa na família e entre amigos, e deve se espraiar a escolas, universidades e a ambientes de trabalho. Precisa haver abordagens e enfrentamentos sobre Saúde Mental e, especificamente, sofrimento psíquico e suicídio. Muitas vezes, quem sofre prefere o silêncio, por se sentir muito fraco ou incompreendido. Estabeleça laços. Observe. Cuide de si mesmo, em primeiro lugar: nem sempre reagimos como gostaríamos, nem somos fortes e resilientes como pensávamos. E tudo bem. Vamos buscar ajuda.
Por fim, o já mencionado problema das mídias. Não quero, mais uma vez, falar sobre censura. Mas é claro que as plataformas precisam combater não opiniões diversas, mas ataques pessoais e agressores. Já a mídia deve tratar do tema “suicídio” com sabedoria, mas sem medo. A cobertura deve ser responsável, sem sensacionalismo e dotada de informações sobre como prevenir e remediar.
Então, é isso. O crescimento do suicídio na América Latina não são apenas números: revelam vidas perdidas, famílias dilaceradas, sociedades em ruínas. Chama-nos à reflexão e à ação diante desta sombra silenciosa, com coragem, empatia e compromisso em relação à saúde mental como um direito fundamental da pessoa humana. É através de esforços conjuntos e de estratégias bem delineadas que podemos erigir uma América Latina e um Brasil onde a esperança prevaleça e cada vida seja valorizada. Como disse Clarice Lispector, vive-se “apesar de”. Não pedimos nada perto de pessoas com uma vida perfeita, apenas mais esforço, colaboração e cuidado com a vida humana.












