No mesmo fim de semana em que lançou oficialmente sua pré-candidatura à Presidência da República, em evento do Partido Novo em São Paulo, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), concedeu entrevista exclusiva ao jornal O Tempo. O mineiro traçou as linhas de sua campanha, falou sobre sua relação com Jair Bolsonaro (PL), fez críticas duras ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e voltou a polemizar em temas como população em situação de rua e ditadura militar.
O lançamento ocorre em um momento de forte tensão no cenário político-econômico: a crise gerada pelo tarifaço imposto pelos EUA ao Brasil segue repercutindo, e uma pesquisa Datafolha aponta que um em cada três brasileiros culpa Lula pelas sanções de Donald Trump, enquanto 39% responsabilizam Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro.
Zema aposta na pulverização da direita
Na entrevista, Zema defendeu a multiplicidade de candidaturas da direita no primeiro turno como estratégia para fortalecer o campo conservador no segundo:
“Muito provavelmente teremos alguns candidatos pela direita, e o ex-presidente Jair Bolsonaro vê isso com bons olhos. Quanto mais candidatos à direita tivermos, mais votos conquistaremos em cada estado, com possibilidade de transferência no segundo turno. Assim estaremos mais fortes do que a esquerda.”
O governador também disse acreditar que Bolsonaro terá um papel indireto na disputa, mas defendeu que novos nomes sejam testados nas urnas.
Gestão em Minas e críticas ao PT
Zema fez questão de comparar sua gestão à do ex-governador Fernando Pimentel (PT):
“Peguei um estado arruinado pelo PT. Hoje Minas é um canteiro de obras, com estradas em recuperação, hospitais regionais sendo concluídos e contas organizadas. Entregarei ao meu sucessor um estado muito diferente do que recebi.”
População de rua e polêmica
Ao ser questionado sobre suas declarações anteriores sobre moradores de rua, Zema não recuou:
“Sou contra morador de rua, sim. Existem albergues, existe estrutura, mas muitos decidem ficar na rua. É direito do cidadão andar numa calçada limpa e segura. Temos que ter leis que proíbam acampamento em espaço público, como já é proibido no Palácio do Planalto ou da Liberdade.”
A fala deve gerar novas críticas de movimentos sociais e especialistas em direitos humanos, que já classificaram sua posição como criminalização da pobreza.
Ditadura, censura e governo Lula
Zema também afirmou ser “democrata” e criticou o que chama de censura de opiniões no Brasil. Sobre Lula, foi taxativo:
“Esse governo não é transparente, não é democrático, acoberta a corrupção e é gastador. Eu teria que usar um microscópio para encontrar pontos positivos no governo Lula.”
Datafolha: tarifaço e culpados
Enquanto Zema mira na disputa presidencial, a economia segue no centro do debate. Segundo levantamento do Datafolha realizado entre 11 e 12 de agosto, 35% dos brasileiros culpam Lula pelo tarifaço de Donald Trump, que elevou em até 50% a sobretaxa sobre produtos brasileiros.
Já 22% atribuem a responsabilidade a Jair Bolsonaro e 17% ao deputado Eduardo Bolsonaro, que atuou junto a autoridades americanas pela adoção das medidas punitivas. Alexandre de Moraes (STF) é apontado por 15%.
A pesquisa ainda mostra que 40% dos entrevistados acreditam que novas medidas prejudiciais à economia brasileira devem ser adotadas por Trump após a prisão domiciliar de Bolsonaro.
O contexto eleitoral
O cenário indica que a eleição de 2026 pode ter um campo da direita fragmentado no primeiro turno, mas unido contra o PT em eventual segundo turno, conforme defende Zema. Ao mesmo tempo, o tarifaço americano promete ser um tema central na campanha, tanto pela responsabilização da família Bolsonaro quanto pelas críticas à diplomacia lulista.
Enquanto Lula tenta colar no rival a pecha de “traidor da pátria”, Zema se coloca como alternativa “de direita moderada” que, segundo ele, combina experiência de gestão, discurso liberal e “firmeza contra a criminalidade”.







